Ouvindo: Paramore – Use somebody (Kings of Leon cover)
Passo lentamente as páginas que um dia já estiveram limpas. Derramei palavras sobre as linhas delicadas, e agora lembro-me dos momentos que levaram-me a escrever aquilo. Nostalgia de tempos que foram bons; situações desagradáveis que me fizeram aprender o que eu já deveria saber desde sempre: as pessoas nunca mudam. Pode haver evolução, mas nunca uma mudança.
A evolução das palavras, o envolvimento delas em mim e as periódicas tempestades letradas, que me afogam e confundem. Desmaios e descansos sobre a água densa a qual me encontro com certa frequência, permitindo raros mergulhos nas profundezas e alguns goles para saciar a sede de escrita.
Necessidade de descarregar o afogamento que as ideias causam em meus pensamentos. “Tudo o que me consome, consumo, e some também” – Jay Vaquer.
Vontade de evoluir, traduzir com mais precisão as frases que me ensurdecem em silêncio. Vontade de mergulhar completamente nas palavras, até que elas entranhem-se em meus pulmões e me deixem inconsciente na escuridão da profundeza de suas águas.

Ouvindo: The Runaways – Queens Of Noise
Penso em coisas mirabolantes, que provavelmente nunca acontecerão. Imagino conversas que não terei, manipulo reações que as pessoas não teriam.
Queria estar com quem eu nunca verei, e invento presenças com uma certa frequência. Abraços vazios preenchem o espaço do tempo que escorre por minhas mãos. Olhares aparecem quando estou de olhos fechados, a felicidade construída a partir de sonhos, nunca chega, nunca chegou. Os sonhos foram ficando esquecidos debaixo do travesseiro, pois ficaram cansados e adormeceram.
Daí flashes, lembranças (inventadas ou reais) e loucuras em milésimos de segundo para contribuir em minha confusão. Paredes e neurônios gritam-me: louca! Mais uma vez, imaginação.
Então, canso-me de tudo isso e mergulho no nada, na inconsciência. Assim, as palavras vão sumindo,
sumindo
sumindo
sumindo
sumindo……….
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Ouvindo: Flicks – Hayley
Às vezes eu queria viver assim, sem fios. Sem conexão com ninguém; mantendo uma ligação ou outra com quem valer à pena. Eles podem nos trazer soluções, mas muitas vezes, problemas também.
Os fios, no início, parecem ser uma das 7 Maravilhas do Mundo, porque estão novos. Como todas as coisas, eles ficam velhos, e pode ser que precisem ser renovados. Nem todos podem ser trocados, porque já fixaram-se nos dois pólos da conexão; daí surgem as falhas, os conflitos, e os problemas de comunicação.
Quando os fios, novos ou velhos, enroscam-se, pode haver um curto-circuito. Situação gravíssima em caso de ser um fio importante. Se arrebentar, então, má notícia: você tem que se virar com alguns outros que talvez você nem sabia lidar tanto assim. Há também a possibilidade de consertá-lo, mas convenhamos, o remendo sempre estará lá, à vista, e causando alguns choques periodicamente.
Eles também não são culpados de tudo, pelo contrário, são importantes e essenciais, e podem ajudar em várias situações. Só pense no caso de que se o outro lado da ligação não for com a sua cara, ele pode manipular esse fio e enforcar você. Tenha outra ligação próxima o bastante para ir lá cortar o que te fez mal; só não espere que essa outra ligação fique para sempre, porque como eu disse, nem todos os fios que precisam ser trocados podem ser trocados. Fique com um pé atrás para eventuais abandonos.
Há casos em que os fios arrebentam por acidente, ou por engano. Não era a intenção de nenhum dos dois lados, mas aconteceu. Mais tarde, quando você perceber, pode ter passado tempo demais para que as ligações pudessem ser refeitas. Então, colega, parte pra outra.
E essas coisas de metal, essas ligações, machucam. Provocam choques, enforcamentos. No final, enrolam-se uns nos outros, até que ninguém mais consiga desfazer o nó. Um elo que se enfraquece e traz problemas, o nó todo pode ficar em chamas. O outro nó, mais perceptível e inicialmente menor, costuma alojar-se na garganta do lado mais fraco; e quando o outro lado não é sensível o bastante para perceber o puxão do fio, vem as lágrimas, ou o caos.
Uma vida wireless (sem fios) poderia ser mais confortável, mas aí entra a história dos porcos-espinhos:
Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio. Os porcos-espinhos, percebendo esta situação, resolveram se juntar em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente. Mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que forneciam calor. E, por isso, tornavam a se afastar uns dos outros. Voltaram a morrer congelados e precisavam fazer uma escolha: desapareceriam da face da Terra ou aceitavam os espinhos do semelhante. Com sabedoria, decidiram voltar e ficar juntos. Aprenderam assim a conviver com as pequenas feridas que uma relação muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro. O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aceita os defeitos do outro e consegue perdão pelos próprios defeitos.
Assim, que os fios fortaleçam-se, cortemos os que nos fazem mal, e que os nós fiquem cada vez maiores, sem chamas.








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